01 novembro 2010

Nem Sarah, nem Sandra

- Dorme aqui de novo amanhã.

- Não vem com essa.

- Por quê?

- Você sabe que não durmo duas noites seguidas com o mesmo cara.

- Você fica tão sexy tentando cobrir o corpo com o lençol branco.

- Para.

- Eu sei que você quer ficar.

- Você nem me conhece direito.

- E daí?

- E daí que você não sabe o que me dá vontade.

- Você que pensa. Você é previsível.

- IM-previsível?

- PRE-visível.

- Não é o que todos dizem.

- Eles não sabem de nada.

- Olha ali. Acho que você deve ficar.

- Olha ali o quê?

- As suas sapatilhas

- O que têm elas?

- Parece que elas se deram bem com meus sapatos.

- Ha, acho que não. Repara na da direita. Tá torta.

- É de amor.

- Amor? Pff. Elas estão é com medo.

- Medo? Elas se sentem intimidadas por eles serem 43?

- Não. É justamente o contrário. Elas gostavam mais dos coturnos do cara de sexta. Se sentiam mais protegidas. Seus sapatos são muito delicados.

- O cara de sexta usava coturnos?

- Sim. Era bem mais musculoso do que você. E nem por isso dormi com ele de novo no sábado.

- Eu quero mais é que caras assim se fodam.

- Invejoso.

- O que te trás aqui afinal, já que você gosta desses caras de outro tipo?

- Você não disse que eu sou previsível?

- Na maior parte das vezes é.

- Acho que você está se atrapalhando.

- Qual é o problema em você ser previsível?

- Não sou previsível. E você não tem esse direito.

- Que direito?

- Se nem os outros caras, se nem eu mesma consigo me entender, não é você que vai ter esse direito.

- Claro que você não se entende. Se esforça tanto pra parecer insensível que age feito uma.

- Isso foi muito gentil de sua parte.

- Por nada.

- Acho que é pra matar as saudades.

- Hã?

- Estou respondendo sua pergunta. Acho que o que me trás aqui é a saudade.

- Saudades de quê?

- Do tempo que eu curtia caras que nem você.

- Caras que nem eu?

- É. Do tipo que pedem pra ficar. E que usam sapatos delicados.

- Aí um deles quebrou seu coração, você se frustrou... Conta aí...

- Não. Aí eu amadureci.

- "E vi que nenhum homem presta".

- Mais ou menos isso.

- Hahaha. "Amadureci" foi ótima. Que belo jeito de esconder a desilusão.

- Ain.

- Desculpa. Acho que peguei meio pesado.

- Relaxa, não sou nenhuma mulherzinha.

- É, eu sei.

- Por que não paramos de falar sobre mim e não começamos a falar sobre você?

- Vá em frente.

- O que, afinal, te fez me trazer aqui?

- Como assim?

- Sei lá. Você não deveria preferir mulheres de outro tipo?

- De qual tipo?

- Do tipo que se apaixonam por você.

- Eu detesto o tipo de mulher que se apaixona por mim.

- Por quê?

- Muito bobinhas. Te olham como você fosse um príncipe encantado. Urgh.

- Engraçado isso. Você faz parecer que razão e emoção não são opostos.

- Não sei se são.

- Também detesto o tipo de caras que gosta de mim.

- Tipo noventa por cento deles?

- Ha, não é assim.

- Você sabe que consegue o cara que quiser.

- Menos bem aqueles que eu quero.

- Amores não correspondidos acontecem.

- É.

- Agora, se me dá licença, vou tirar as nossas coisas do chão. A diarista logo vai chegar e se atrapalhar com tudo isso.

- Tudo bem.

- Peraí, onde vai pôr minhas sapatilhas?

- Dentro do armário.

- Junto com os outros sapatos?

- É.

- Não. Deixa elas aí. Tô começando a confiar nesses seus sapatos delicados. Não quero elas no meio dos outros cafajestes.

- Ahá, eu sabia.

- Não sabia de nada. Agora volta pra cama, meu bem.